Minha trajetória científica no estudo do gambling, tomada de decisão e impulsividade
Leandro Fernandes Malloy-Diniz
Sou pesquisador e professor vinculado à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com atuação no campo da neuropsicologia dos transtornos psiquiátricos, especialmente nos temas de impulsividade, funções executivas e tomada de decisão sob risco. Ao longo da minha trajetória acadêmica, esses interesses me conduziram, de forma consistente, ao estudo do gambling, tanto como paradigma experimental quanto como fenômeno clínico e de saúde pública.
Minha relação com o tema do gambling não surgiu apenas a partir do debate recente sobre apostas online no Brasil. Ela se construiu gradualmente, a partir de uma preocupação central: como o cérebro humano aprende com recompensa e punição, como decide em contextos de incerteza e por que algumas pessoas apresentam maior vulnerabilidade a comportamentos de risco, incluindo o jogo problemático.
Gambling como paradigma neuropsicológico: o Iowa Gambling Task
Um dos eixos centrais da minha pesquisa sempre foi a avaliação da tomada de decisão em contextos ambíguos, nos quais ganhos imediatos entram em conflito com perdas futuras. Nesse contexto, o Iowa Gambling Task (IGT) tornou-se um instrumento fundamental.
Participei do processo de adaptação transcultural e validação da versão brasileira do IGT, publicada em 2008 na Revista Brasileira de Psiquiatria. Esse trabalho teve como objetivo tornar o instrumento aplicável ao contexto brasileiro, garantindo validade discriminante e comparabilidade internacional. A partir disso, tornou-se possível investigar, no Brasil, perfis de decisão associados a:
- impulsividade elevada
- sensibilidade reduzida à punição
- preferência por recompensas imediatas
- dificuldades de aprendizagem com perdas
Esses mesmos processos estão no núcleo do comportamento de gambling. Embora o IGT seja uma tarefa experimental, ele simula mecanismos psicológicos fundamentais que também aparecem no jogo real: reforço intermitente, expectativa de ganho, persistência apesar de perdas e falhas de autocontrole. Por isso, considero que a introdução do IGT no cenário brasileiro foi uma contribuição estrutural para o estudo científico do gambling no país.
Linha do tempo – foco em gambling
| Ano | Contribuição | Fonte |
|---|---|---|
| 2008 | Adaptação e validação da versão brasileira do Iowa Gambling Task (IGT), permitindo pesquisa nacional sobre tomada de decisão sob risco. | Revista Brasileira de Psiquiatria (SciELO) |
| 2007–2008 | Participação em obra de referência em neuropsicologia, com abordagem da neuropsicologia do jogo patológico. | UNIAD – livros recomendados |
| 2025 | Atuação editorial em artigo sobre BETS e apostas esportivas online como fenômeno psicológico e de saúde pública. | Debates em Psiquiatria |
Da tarefa experimental ao jogo patológico
Ao longo da minha atuação em neuropsicologia clínica e psiquiátrica, ampliei esse olhar experimental para uma perspectiva clínica mais direta. Em obras de referência em neuropsicologia das quais participei como organizador e coautor, abordei — diretamente ou por meio de capítulos específicos — a neuropsicologia do jogo patológico.
Nesses trabalhos, o gambling é compreendido não como falha moral ou simples descontrole comportamental, mas como um fenômeno complexo, sustentado por:
- alterações nos circuitos de recompensa
- déficits de controle inibitório
- tomada de decisão enviesada
- interação entre emoção, cognição e contexto social
Essa abordagem neuropsicológica permite compreender por que alguns indivíduos persistem no jogo mesmo diante de prejuízos financeiros, sociais e emocionais — um padrão que se repete tanto em jogos tradicionais quanto nas modalidades digitais contemporâneas.
Gambling, impulsividade e saúde mental
Meu vínculo institucional com a Faculdade de Medicina da UFMG, no campo da saúde mental e da psiquiatria, sempre orientou minha pesquisa para além do laboratório. A impulsividade — um construto central nos meus estudos — aparece de forma recorrente como fator de risco para diversos transtornos psiquiátricos e comportamentos aditivos, incluindo o gambling disorder.
Por isso, parte significativa do meu trabalho envolve a mensuração da impulsividade e sua relação com tomada de decisão, autorregulação emocional e comportamento de risco. Esses elementos são essenciais para compreender:
- quem é mais vulnerável ao jogo problemático
- como diferentes perfis cognitivos respondem ao reforço das apostas
- por que determinados ambientes digitais amplificam comportamentos de gambling
Mecanismos psicológicos centrais do gambling
| Mecanismo | Descrição | Base científica |
|---|---|---|
| Reforço intermitente | Padrão imprevisível de ganhos que aumenta persistência no jogo, mesmo após perdas. | Debates em Psiquiatria |
| Impulsividade | Tendência a priorizar recompensas imediatas, com prejuízo do planejamento de longo prazo. | Faculdade de Medicina – UFMG |
| Aprendizagem com perdas | Dificuldade de ajustar o comportamento após consequências negativas. | SciELO Brasil |
O debate contemporâneo sobre BETS e apostas online no Brasil
Nos últimos anos, com a expansão acelerada das apostas esportivas online (BETS) no Brasil, passei a me envolver também no debate científico e editorial sobre esse fenômeno como um problema emergente de saúde pública.
Em publicações recentes da revista Debates em Psiquiatria, participei como responsável editorial em artigos que discutem os mecanismos psicológicos e neurobiológicos por trás das BETS. Nesses textos, o foco não está apenas no comportamento individual, mas também em fatores estruturais, como:
- reforço intermitente e imprevisibilidade
- design das plataformas digitais
- marketing agressivo e normalização cultural das apostas
- exposição precoce de jovens e adolescentes
- riscos de desenvolvimento de transtorno relacionado ao jogo
Vejo esse momento como uma continuidade natural da minha trajetória: os mesmos mecanismos estudados há anos em tarefas experimentais de gambling agora se manifestam, em larga escala, em ambientes digitais acessíveis 24 horas por dia.
Do laboratório à política pública
Ao longo da minha carreira, busquei construir pontes entre pesquisa básica, clínica e debate público. O gambling é um exemplo claro dessa integração. Comecei investigando tomada de decisão em contextos controlados; avancei para a compreensão clínica do jogo patológico; e hoje participo ativamente da discussão sobre regulação, prevenção e proteção de populações vulneráveis diante da expansão das apostas online.
Acredito que o enfrentamento dos problemas associados ao gambling no Brasil exige:
- evidência científica sólida
- instrumentos de avaliação validados
- compreensão neuropsicológica dos mecanismos de risco
- diálogo entre ciência, saúde pública e políticas regulatórias
Minha contribuição nesse campo tem sido, e continua sendo, oferecer uma base neuropsicológica rigorosa para que o debate sobre gambling não seja apenas moral ou econômico, mas científico, clínico e socialmente responsável.
Quando observo minha trajetória com foco no gambling, vejo uma linha contínua:
- primeiro, o estudo da tomada de decisão sob incerteza por meio do Iowa Gambling Task;
- depois, a ampliação para a neuropsicologia do jogo patológico;
- por fim, o engajamento no debate contemporâneo sobre apostas online e saúde pública no Brasil.
Em todas essas etapas, o objetivo permanece o mesmo: compreender como decisões são tomadas, por que o risco seduz e como prevenir que o gambling se transforme em sofrimento psíquico e social.


